Foto: Vinicius Becker (Diário)
Após 27 dias internado no Complexo Hospitalar Astrogildo de Azevedo (CHAA), o aposentado recebeu alta e voltou para casa, onde agora concentra forças na recuperação – cercado pela esposa, familiares, amigos e pelo cãozinho Tony, companhia fiel de caminhadas matinais há 13 anos.
O retorno para casa, junto à família e ao fiel companheiro de quatro patas, marca um novo capítulo na vida de Alcione Ottonelli Pithan, 64 anos. Após 27 dias internado no Complexo Hospitalar Astrogildo de Azevedo (CHAA), o aposentado recebeu alta e voltou para o lar na Rua Euclides da Cunha, em Santa Maria, onde agora concentra forças na recuperação – cercado pela esposa, familiares, amigos e pelo cãozinho Tony, companhia fiel de caminhadas matinais há 13 anos.
Servidor público aposentado do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), Pithan foi atropelado sobre a calçada por um carro desgovernado na manhã de sábado, 17 de janeiro, enquanto passeava com Tony. Desde então, enfrentou cirurgias, complicações infecciosas e dias de incerteza. Agora, em casa, inicia uma nova etapa de recuperação.
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Pithan recebeu alta hospitalar em 13 de fevereiro. De volta em casa, ainda se limita a fazer poucos movimentos, caminhar pouco e focar os cuidados apenas no processo de recuperação. O corpo apresenta muitos hematomas, e a fragilidade o limitam a permanecer em casa, sem poder realizar longas caminhadas ou sair sozinho na rua. O aposentado caminha com ajuda de uma muleta.
- A recuperação está difícil, porque são limitações que eu não tinha antes. Sinto dores na perna operada e minha mobilidade ainda é reduzida. Eu caminho bem devagar e estou até mesmo usando cadeira de banho, porque não consigo me movimentar como antes - revela
Durante a internação, Pithan passou por cinco procedimentos cirúrgicos e chegou a contrair uma infecção hospitalar. Apesar disso, permaneceu consciente e foi acompanhado por uma equipe de neurologia para avaliar a coluna e a sustentação muscular. Os resultados sempre foram positivos e surpreendiam a família e a equipe médica. Outro ponto positivo foi a resposta dos medicamentos, que estavam atuando de forma eficaz no corpo e melhorando a cada dia seu estado clínico.

- Eu sinto muita falta de caminhar. Sempre fui de estar na rua, passeando. A rotina antes do acidente começava cedo. Acordava às 6h30min, saía com o Tony, fazíamos nosso trajeto pela vizinhança todo dia. Ele é meu companheiro em todos os amanhecer, não vejo a hora de voltar para a rua com ele do lado me acompanhando - conta.
No dia do atropelamento, Pithan lembra apenas do impacto.
- Do acidente em si eu não lembro de nada. Eu acordei depois, vendo as luzes da CTI. Minha esposa me disse: "Isso é real, você foi atropelado" - recorda.

Pithan diz que, após as caminhadas, retornava para casa e preparava o café para a esposa, que naquela manhã estranhou a demora dele em retornar. A ausência de sair e caminhar também impactou o companheiro de todas as manhãs.
- Até ele (o cãozinho Tony), não entendeu quando eu voltei para casa e não dava atenção para ele, não saía com ele - diz, emocionado.
Trajetória entre cidades e retorno a Santa Maria
Natural de Santa Maria, Pithan passou a infância em Frederico Westphalen e construiu a vida profissional em Porto Alegre, onde trabalhou por mais de quatro décadas na Justiça do Trabalho. Nos últimos anos antes da aposentadoria, atuou em Gravataí.
- Fiquei 40 e poucos anos em Porto Alegre. Sou mais porto-alegrense do que santa-mariense, mas em 2019, após me aposentar, decidi retornar à cidade natal - diz.
Casado, ele conta que era responsável por grande parte das tarefas domésticas e pelos cuidados com a esposa, que tem deficiência decorrente de uma paralisia.
- Era eu que fazia tudo em casa. Passeava com o Tony e cuidava dos afazeres domésticos. O acidente me impossibilitou até isso. Acabamos ficando os dois dependentes de ajuda dos familiares, mas esse apoio nunca faltou - conta.
Agora, com início da fisioterapia, Pithan mantém a expectativa de retomar, ainda que gradualmente, a antiga rotina. Em razão dos meses hospitalizado, ele perdeu muita massa muscular, e precisa recuperar a força nas pernas para voltar a caminhar.
Ao lembrar da internação, foi impossível para o aposentado conter a emoção e agradecer a quem sempre esteve ao seu lado.
– Eu agradeço a todos que estão do meu lado e me ajudaram. Agradeço a Deus, principalmente, porque tive muita ajuda espiritual, senão não estaria aqui. Agradeço a minha irmã, que não mediu forças para sempre me auxiliar, ao meu filho, minha nora, minha esposa. Agradeço as orações dos amigos e dos vizinhos que se uniram em prece para me ajudar. Eu sobrevivi graças à fé e à ajuda de tantas pessoas – relata, emocionado.
Tony, o fiel companheiro
Tony foi repassado pela mãe de Pithan, Terezinha Ottonelli Pithan, para que o filho cuidasse. Atualmente, o cão tem 13 anos e possui seu espaço na casa com cama e brinquedos. Mas o lugar preferido, mesmo, é no sofá da sala, ao lado do seu amigo de caminhadas.
No dia do acidente, Tony não foi atingido, mas com o impacto se assustou e fugiu do local. Ele foi localizado na Rua Alameda Buenos Aires, próximo ao prédio do Fórum, a quase três quadras do local do acidente. O cão foi resgatado sem ferimentos.

Família contesta versão inicial do acidente
A irmã de Alcione Pithan, Circe Ottonelli Pithan, 63 anos, que acompanha de perto a recuperação, afirma que testemunhas procuraram a família relatando versão diferente da inicialmente registrada. Segundo ela, o motorista estaria dormindo ao volante no momento do atropelamento e atingido Pithan já sobre a calçada.
— Ele tentou fugir. Só não conseguiu porque uma testemunha gritou. Depois colocou o carro na rua e não prestou socorro — afirma.
Ainda conforme a família, o atendimento foi acionado por pessoas que presenciaram o fato, que chamaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e a Brigada Militar.

— Quem chamou o socorro foram outras pessoas. Ele (motorista) ficou sentado, ligando para familiares para buscar o carro — relata.
Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que Pithan é atingido na calçada e arremessado por alguns metros enquanto passeava com seu cão.
O motorista, de 45 anos, não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e não foi autuado em flagrante. O caso está na Polícia Civil, sob responsabilidade da 1ª Delegacia de Polícia de Santa Maria, que instaurou inquérito para apurar as circunstâncias do atropelamento.
— É muito triste ver alguém pensar primeiro em se livrar da situação. A gente quer justiça — afirma Circe.
O caso segue em investigação.